← Voltar ao blogMercado · 28 jul 2026 · Equipe Up Assessoria · 7 min de leitura

Keeta paga sua multa do iFood: vale trocar de plataforma?

A Keeta está pagando multas de exclusividade para tirar restaurantes do iFood, mas com uma condição. Entenda o que muda e como decidir sem perder margem.

Keeta paga sua multa do iFood: vale trocar de plataforma?

A Keeta, braço de delivery do grupo chinês Meituan, começou a pagar a multa de rescisão de restaurantes presos em contratos de exclusividade com o iFood — algumas delas acima de R$ 1 milhão. Mas existe uma condição no meio do caminho: se a Keeta pagar a multa inteira, o restaurante fica proibido de entrar na 99Food e em outros apps. Ou seja: pode não ser liberdade, e sim troca de coleira.

O que exatamente a Keeta está oferecendo

Segundo reportagem do NeoFeed, publicada em 18 de junho de 2026, a Keeta passou a mirar redes de porte médio — de até 30 lojas — que hoje só vendem pelo iFood por força de contrato. A empresa banca a multa contratual para conseguir colocar o cardápio dessas marcas no próprio app.

Os números reportados dão a dimensão da disputa:

  • Multas individuais que passam de R$ 1 milhão por rede
  • A Keeta conversa com cerca de cinco redes por semana
  • Mais de 50% dos restaurantes relevantes de São Paulo já estão amarrados em algum acordo de exclusividade
  • A operação brasileira da empresa tem R$ 5,6 bilhões alocados

Isso explica por que o dinheiro está sendo usado assim: em muitas praças, não adianta ter verba de cupom se o cardápio que o cliente quer está travado por contrato.

A pegadinha: são dois modelos, e só um deixa você livre

Essa é a parte que o dono de restaurante precisa ler com atenção. O vice-presidente da Keeta no Brasil, Danilo Mansano, explicou ao NeoFeed que a oferta tem duas versões — e elas não são equivalentes:

ModeloQuem paga a multaO que você pode fazer depois
Pagamento integralA Keeta paga 100%Você só pode operar iFood + Keeta. 99Food e outros apps ficam vetados
Pagamento parcialA Keeta paga uma parte, você banca o restoVocê fica livre para operar em qualquer plataforma

Traduzindo para a sua operação: no modelo integral, você sai de uma exclusividade e entra em outra, só que agora com dois donos em vez de um. A liberdade real custa dinheiro do seu caixa — e é justamente por isso que ela merece ser calculada, não recusada por reflexo.

Por que isso está acontecendo agora

A Keeta chegou ao Brasil prometendo escala rápida e hoje opera em 11 cidades, concentradas no litoral e na região metropolitana de São Paulo. Conforme O Tempo, o plano original era chegar a 16 capitais até o fim de 2026, mas o cronograma precisou ser refeito — e a chegada a praças importantes, como o Rio de Janeiro, atrasou. O motivo declarado é exatamente esse: cardápio travado por exclusividade.

Ou seja, a multa virou o pedágio de entrada do mercado. E, do outro lado do balcão, quem tem contrato de exclusividade acabou de descobrir que ele tem preço de mercado.

A Abrasel entrou na conversa — e o alerta é para você

Em 26 de junho, o presidente da Abrasel, Paulo Solmucci, criticou publicamente tanto os contratos de exclusividade quanto a postura do Cade. Ele classificou como desastrosa a decisão do órgão, de 25 de junho, de arquivar a investigação sobre práticas de exclusividade da 99Food — aberta a pedido da própria Keeta — e defendeu que a autoridade aja de forma preventiva, e não só depois que o dano aparece.

Solmucci fez ainda um apontamento que interessa diretamente ao operador: restaurantes que assinam exclusividade tendem a olhar só para o valor adiantado que recebem, e não para o que acontece com o mercado dois ou três anos depois. Segundo os dados citados na mesma reportagem, o delivery em São Paulo cresceu 20%, com a divisão de mercado na cidade em torno de iFood (60%), 99Food (30%) e Keeta (10%) — e o risco apontado é o setor terminar num duopólio.

O que isso muda no seu delivery (mesmo que ninguém te ofereça R$ 1 milhão)

Se você tem uma ou cinco lojas, nenhuma plataforma vai bater na sua porta com cheque de sete dígitos. Mas quatro coisas mudam mesmo assim:

1. Exclusividade agora tem preço — e você sabe qual é. Se um app te oferecer bônus, destaque ou taxa menor em troca de exclusividade, você já sabe o que está vendendo: a sua liberdade de negociar daqui a dois anos.

2. Leia a cláusula antes de aceitar qualquer "condição especial". Muito contrato de exclusividade entra disfarçado de plano promocional. Procure as palavras exclusividade, multa rescisória e prazo de vigência — e some quanto custaria sair.

3. Multa paga não é dinheiro no seu bolso. É custo de aquisição da plataforma. Quem paga uma multa de R$ 1 milhão espera recuperar isso em comissão. A conta volta pra você mais adiante.

4. O canal próprio é a única coisa que ninguém compra de você. Nenhuma plataforma paga multa para tirar seu WhatsApp do ar. Nos clientes que atendemos na Up — de pizzarias como a Manjê e a Madonna Pizzas a hamburguerias como a Java's Burger —, a primeira pergunta antes de qualquer decisão de plataforma é sempre a mesma: quanto do faturamento já vem de canal direto?

As 4 contas para fazer antes de assinar

  1. Qual é a sua multa de saída hoje? Se você não sabe o número, você não tem margem de negociação.
  2. Quanto vale o app que você está abrindo mão? Pegue o faturamento dos últimos 90 dias por canal, não a sensação.
  3. Qual o custo real por pedido em cada plataforma? Comissão nominal, taxa de pagamento online, frete grátis e cupom bancado por você. É essa soma que define se vale — veja como montar essa conta no guia de precificação para delivery.
  4. Você aguenta a queda de volume nos primeiros 60 dias? Trocar ou somar plataforma mexe no algoritmo e na sua base. Ter canal próprio rodando é o que segura a operação nesse intervalo.

Para entender o pano de fundo regulatório dessa briga, vale ler também o que o caso Cade x 99Food muda pra você e a análise de quando o iFood acionou o Cade contra 99Food e Keeta. Se a dúvida é entrar ou não em plataforma nova, comece por 99Food e a comissão zero.

Perguntas frequentes

A Keeta paga a multa de qualquer restaurante?

Não. Segundo o NeoFeed, o alvo declarado são redes de porte médio, com até 30 lojas, que tenham contrato de exclusividade com o iFood. Restaurantes independentes e operações menores não estão nesse pacote — a negociação acontece caso a caso, com foco em marcas que puxam volume para o app.

Se a Keeta pagar minha multa, eu fico livre para vender em todo lugar?

Depende do modelo. No pagamento integral, o próprio vice-presidente da Keeta afirmou que o restaurante não pode entrar na 99Food nem em outros aplicativos. Só no modelo parcial, em que você banca parte da multa, a operação segue livre para vender em qualquer plataforma.

Contrato de exclusividade no delivery é permitido no Brasil?

Sim, e continua valendo. O Cade arquivou em 25 de junho de 2026 a investigação sobre exclusividade da 99Food, decisão criticada pela Abrasel. Enquanto não houver regra específica, a exclusividade é contratual: quem assina se compromete, e quem quer sair paga a multa prevista.

Vale a pena entrar em mais de uma plataforma?

Na maioria dos casos, sim — desde que a operação aguente. Estar em mais apps reduz dependência e melhora seu poder de negociação. O erro é aceitar exclusividade por um bônus pontual e descobrir depois que perdeu a carta de negociação justo no ano em que o mercado ficou disputado.

Se você quer descobrir quanto a exclusividade está custando na sua operação e como montar canal direto antes da próxima negociação, fale com a Up — a gente faz essa conta com você.

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